• Danton Ferreira Vellenich

Piracanga – O que voltou conosco na mochila?

Atualizado: 19 de Fev de 2019

Tínhamos definido para a viagem que gostaríamos de ter a experiência de viver em uma ou mais comunidades intencionais. O objetivo era conhecer o que seria esse estilo de vida, ampliando nossa visão sobre os temas de sustentabilidade e vida minimalista. A expectativa era alta, mas o que descobrimos em Piracanga foi ainda capaz de superá-la. Entendemos um pouco porque a ONU vem reconhecendo muitos exemplos vindos de Ecovilas como “Melhores Práticas”, guiando possíveis caminhos a serem seguidos pela humanidade.


Não serei capaz de descrever tudo o que vivemos, e, como essa experiência ainda está sendo processada por nós, não consigo dar a profundidade que nos impactou. Mas fica o convite para quem sentiu a curiosidade que vá também descobrir o que vou listar abaixo do que vimos por lá.


1) A Vida em Comunidade

Escola Inkiri - apresentação dos trabalhos de fim de ano

Era o primeiro tema na nossa cabeça quando pensamos em comunidade intencional. A Lu e eu, até nos unirmos, já tínhamos dividido muitas casas durante nossas vidas, em repúblicas, alojamentos e moradias compartilhadas. Conhecíamos os desafios e as potencialidades, mas a dúvida era: o que seria isso em uma escala maior?

Observando a relação entre as pessoas, relembramos a profundidade que conexões humanas podem ter em ambientes compartilhados neste nível. Interagindo era fácil perceber a rede de apoio que estava tecida e disponível entre eles. Era tangível os acordos que sustentavam as relações e os valores compartilhados.

Festa de aniversário com violão e boa prosa

Dentre estes valores, um que nos tocou mais direta e profundamente foi a simplicidade na forma de se interagir, se vestir, se divertir, enfim, de se viver. O relacionamento e a forma de tratar um problema é de frente, com abertura e leveza, simples – sem deixar ele se complicar muito. Um violão e um prato de salgados faz uma boa diversão para a noite toda, com muita prosa boa rolando solta. A Lu já contou no post anterior como fomos abençoados presenciando o casamento de um casal muito especial lá. Acrescento um detalhe que as pessoas se vestiam neste dia, como se vestiam em todos os demais. Talvez com uma flor no cabelo a mais, em homenagem aos noivos. Ou seja, estavam lá neste casamento inteiras, como são, sem qualquer outro desvio de foco ou complicação. Simples assim.


2) Relações de Trabalho e Economia

Danilo apresentando o Centro Inkiri

A economia da região gira em torno do Centro Holístico Inkiri. Através dele oferecem cursos, retiros e hospedagem aos visitantes que buscam experiências dirigidas ao autoconhecimento.


O Trabalho é um aspecto muito presente na vida das pessoas da comunidade. Para mim foi agradável ver o nível de competência e a dedicação para fazer a comunidade se manter e prosperar. A relação de trabalho entre eles recebe o devido respeito, sejam trabalhos remunerados ou não. As remunerações, ou salários, daqueles que se dedicam a atividades do Centro Holístico estão organizadas por hierarquia de responsabilidade e meritocracia. Além disso existe clareza na aquisição de produtos ou serviços, como aluguel, comida, acesso a internet, cursos, terapias, musicas ou artes.

Coworking - espaço de trabalho com vista para o mar

Percebemos que como Piracanga se organiza dá a leveza para as pessoas trabalharem mais horas se estiverem obstinadas e aquelas que não queiram ou não possam, igualmente tenham a liberdade para fazê-lo, cada um tendo clareza das responsabilidades de suas decisões. Para quem ficou curioso, vamos contar um pouco mais de detalhes em outro post (clique no link).




3) Educação das crianças

Escola Inkiri - Entrada principal

Este merece um post específico, para contarmos inclusive sobre a experiência da Liz na escola de lá (espia lá: https://www.mochilaocommochilinhas.com/blog/escola-inkiri-um-novo-modelo-de-educa%C3%A7%C3%A3o).


De uma forma geral, foi muito bacana encontrar a liberdade que as crianças são criadas e a dedicação compartilhada entre toda a comunidade na sua formação. O espaço e incentivo dado me faz acreditar que essas crianças se identifiquem e alcancem seus potenciais.


4) Integração com a Natureza


É sem dúvida um dos temas mais profundamente tratados na comunidade. Piracanga se desafia a olhar o ciclo como um todo, desde o momento da construção, passando pela aquisição de matérias-primas, chegando ao tratamento de resíduos.


O tratamento da água tem uma dedicação específica pelo lençol freático, tão abundante, estar muito próximo ao solo. Uma química ou contaminante que chegue ao chão que não se decomponha pode voltar na água que vai ser consumida se não filtrada adequadamente. Por isso seus tratamentos e filtragens de água são eficientes e tem tido inclusive espaço reconhecido nos eventos científicos. Os cuidados com os produtos que chegam ao solo são bastante rigorosos, optando pelos biodegradáveis.

Importante destacar os resultados de regeneração da floresta e fauna atingidos nos últimos anos. As imagens de satélite acreditam que falam por si.


Regeneração da mata em 10 anos

Atualmente a comunidade tem se dedicado a se tornar autossustentável na produção de alimentos, através da permacultura. Os bons hábitos trouxemos na mochila e estamos nos desafiando a mantê-los vivo durante toda a viagem! E para não esquecer, escrevemos alguns em outro post. (clique aqui para ler)


5) Autoconsciência e Espiritualidade

Oca Inkiri - espaço de partilha e cursos

A espiritualidade do local talvez seja o principal imã de atração das pessoas à Piracanga, mas confesso que não era para nós o tema de curiosidade.


No entanto aproveitamos o tempo para as nossas reflexões e abertura através da participação em uma ou outra vivencia, das várias que são oferecidas. A Lu participou de uma vivência que a levou para a experiência e reflexão do momento da sua concepção ao parto. Eu fiz uma leitura da aura que trouxe à consciência muitos pontos sobre mim que fez muito sentido refletir neste momento da vida.


A profundidade e a forma que as reflexões foram trazidas nestas vivências são ainda inexplicáveis para mim. Saímos com uma sensação que existe um universo inteiro inexplorado, com múltiplas ferramentas que simplesmente desconhecíamos que poderiam existir. Aprender mais sobre este universo seguramente será um dos principais motivadores que nos levará de volta no futuro.


E na mochila?


Bom.. na mochila vieram a saudade, aprendizados e desejo de conhecer muito mais. Para resumir a visão que trouxemos sobre a comunidade é que esta é uma experiência que reúne seres humanos – brilhantes por sinal – para viverem mais integrados com o seu entorno, buscando minimizar seu impacto no meio ambiente, se desafiando a ter entendimento sobre seus atos e escolhas. De certa forma, um laboratório vivo, guiado por uma bela e nova utopia, mantida com bastante coragem e trabalho, com espírito e mentes abertas para tentarem diferente se conscientemente entenderem necessário.


“Viver de modo mais ético com os semelhantes e com o planeta não significa voltar ao passado, mas sim desenvolver novas e criativas tecnologias e formas de organização social”. (CAPRA, 2006 apud BÔLLA, 2012)


*Agradecimento ao trabalho de Taisa Mattos - embaixadora da GEN - Global Ecovillage Network




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