• Danton Ferreira Vellenich

Piracanga - Uma comunidade com um sistema de remuneração meritocrático, moeda e banco próprios


Vivendo em um espaço compartilhado, essas pessoas tem um potencial enorme de transformação, mas como organizá-los?


Para dar o contexto adequado é interessante lembrar que o acesso a Piracanga não é trivial. A partir da cidade mais próxima – Itacaré - segue-se por uma trilha que te toma entre 30min a 1h com um carro 4x4, que talvez seja a única opção a depender da chuva.



Atualmente este pedaço de terra é compartilhado por:

  • Centro Holístico – Inkiri Piracanga

Principal instituição administrativa e econômica da região, reúne e organiza as forças de trabalho da comunidade para promoção de cursos, retiros e terapias, provendo toda a estrutura necessária para acomodá-los, como hotelaria, restaurante, entre outros. É a principal fonte de renda, que distribui a remuneração entre as pessoas e investimentos nos projetos de sustentação dos pilares da comunidade, como a permacultura, biconstrução etc.


  • Ecovila Piracanga

Reúne atualmente +60 casas onde vivem todos os membros da comunidade, além de moradores desvinculados ao centro ou veranistas. Algumas destas casas podem ser alugadas inclusive via AirBnb. Algumas outras pertencem ao Centro Holístico, que acomodam seus hóspedes também.


Pelo equilíbrio do ecossistema e geografia, é pouco provável que a vila cresça mais que o desenho atual. Ou seja, o número de pessoas presentes na comunidade não deve oscilar mais que os 100-300 pessoas entre baixa e alta temporada.


  • Outras organizações comerciais desvinculadas ao centro.

Destaque que neste espaço distante de um centro urbano também convivam outros comércios e centros terapeuticos , como uma pizzaria e o centro do Osho Brasil. Eles também seguem um acordo de convívio, como alimentação vegetariana, ausência de bebidas, drogas e cigarro, entre outros.



Quais as oportunidades de trabalho?

Em um lugar como esse, tudo o que precisa ser feito depende daqueles que dividem esse espaço. Seja construir uma casa, gerar energia, encontrar água, dar destinação para os resíduos ou dar acesso à internet, todas as atividades tem importância e reconhecimento. É por isso que o Trabalho é muito presente no dia a dia desta comunidade. Inclusive é uma das formas de uni-las sob um propósito.


As rotinas de trabalho são definidas por operações, que organizaram inspirados na natureza, batizada de "Floresta de Projetos". Cada operação ou projeto, chamada de “árvore” tem um objetivo claro, como por exemplo: Restaurante, Tratamento de Resíduos, Permacultura, BioConstrução, TI, etc. As pessoas se colocam a serviço de cada um destas árvores e estabelecem seus contratos de trabalho, determinando suas responsabilidades.


Além das pessoas da comunidade, Piracanga também conta com uma força de trabalho contratada segundo a CLT, que complementam as atividades em funções que não foram integralmente atendidas por pessoas de lá. Esses funcionários proveem de comunidades rurais próximas, em especial da comunidade de Caubi.


A rotina de trabalho comunitário é organizado em geral das 9h-12h e das 14h-17h.

“Ah! Só 6h é pouco” passou pela minha cabeça.. mas a verdade é que o restante do tempo merece uma rotina pesada de atividades domésticas (compras, preparo de comida, organização da casa, etc) e de manutenção (rotina de lixo, filtro de água, conserto do que está quebrado, etc). Apenas o domingo tirávamos o dia de descanso.

Naturalmente existiam as rotinas que exigiam horários diferentes e as pessoas que se dedicam um pouco mais, com trabalhos fora do “horário comercial”.


Além disso, as atividades artísiticas também tinham o status claro de trabalho – seja na produção de um disco, de um artesanato, pintura, etc.

Painel pintado na sala do grupo 1 da Escola Inkiri

Curiosidade: nossa casa era vizinha ao studio de música. Ficamos impressionados testemunhando o quanto trabalhavam. A galera da música estava em todo lugar... Desde cedo já estavam tocando para uma meditação ou curso e quando não estavam por lá estavam no studio, ou dando aula particular de música para alguém. A noite de vez em quando ainda tocavam em um festinha ou num café, por diversão... kkk A única parada acontecia quando o mar estava dando onda! Afinal de contas, surf é o esporte oficial.


Mas como distribuem o rendimento ?

O acordo de remuneração aos trabalhos comunitários é definido por uma estrutura de responsabilidades.


Seguindo o conceito da "Floresta de Projetos", cada atribuição de responsabilidade tem uma função e um nível de dedicação ou presença. Por exemplo, como a raíz de uma árvore, a pessoa "raíz" é responsável por nutrir e sustentar o projeto, com recursos externos e dedicação integral (na nossa organização tradicional equivale a um diretor ou gerente). Outro exemplo seria a "folha", que tem uma presença não integral, que participa da árvore em atribuições mais simples (como na nossa organização tradicional um contribuinte ou analista). A cada nível de responsabilidade, existe uma remuneração relativa e uma faixa meritocrática, determinada em conjunto pela comunidade.


E como é a escolha daquilo em que vão investir?

A determinação dos investimentos, dos projetos que serão criados, ou incentivados vem de decisões do fórum da comunidade.

Enxergamos nossa economia local como uma linda floresta, onde cada projeto é uma árvore, que cresce só até atingir o tamanho necessário, e que a diversidade é tão importante quanto o equilíbrio, a simplicidade e a beleza.

Não tivemos a experiência de presenciar este fórum e entender exatamente como esta política opera, mas das conversas com as pessoas em geral, tivemos uma impressão que a figura da fundadora - Angelina Ataide - é muito presente nestas decisões. Essa centralização do poder é um tema que percebemos que vem ao longo dos últimos anos sendo distribuído, delegado, trazendo uma base analítica, sem abrir mão da intuição.


E na prática, como viabilizar isso longe de um centro urbano?

Moeda Inkiri

Até pouco tempo atrás, realizar um pagamento por um serviço ou compra de produto de fora da comunidade exigia uma vaquinha coletiva, que além de dinheiro vivo, incluía cheques e promessas.

Para os visitantes que ficavam sem dinheiro, a única solução era se deslocar para a cidade para sacar dinheiro.

Para simplificar a vida por lá foi criado um banco comunitário e de quebra uma moeda própria para incentivar o comércio e produção locais. O Banco Inkiri simplificou e potencializou as organizações, dando transparência aos investimentos e nas relações da comunidade.

Essa iniciativa teve ainda outro efeito curioso que foi dar mais segurança na comunidade, reduzindo o número de furtos ou assalto a moradores que circulavam na cidade, afinal de contas o dinheiro que carregavam só podia ser usado em Piracanga.


O que tiramos desta experiência?

Quando se está dividindo trabalho, casa e lazer com as mesmas pessoas, não dá para não ser inteiro e verdadeiro. Além disso, é necessário tratar a vida com leveza, afinal de contas não dá para ter uma discussão ruim no trabalho, simplesmente fechar o notebook e ir embora. Os conflitos e problemas precisam ser enfrentados de frente, com amor. Além da consciência do peso adequado para os temas.


A reflexão observando a organização do trabalho é que a primeira vista ela pode não ser muito diferente da estrutura coorporativa tradicional. Pensando bem, realmente o modelo empresarial/coorporativo de fato é a melhor forma que aprendemos até aqui a realizar coisas. É nosso principal poder de REALIZAÇÃO. Mas em Piracanga percebemos um detalhe que faz toda a diferença: a INTENÇÃO. E foi curioso para mim quebrar outro pre-conceito de comunidades intencionais, e ver que esta sociedade não combate o dinheiro ou o sistema econômico. Ela simplesmente não o coloca no topo das suas intenções.


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@ 2018-2019 Mochilão com Mochilinhas

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