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  • Luciana Rangel

Um mês sem geladeira, carne, banho quente, máquina de lavar roupas, descartáveis e com crianças!

Atualizado: 19 de Fev de 2019

Como foi nossa experiência em Piracanga


A eco-vila Inkiri Piracanga fica na península de Maraú, na Bahia, na beira de um rio e de um mar, em uma natureza preservada e linda! Inkiri significa “O Amor em mim saúda o Amor em você” e nesse lugar vivem cerca de 50 adultos e 20 crianças/adolescentes que se dedicam a transformação positiva do mundo através do auto-conhecimento, da comunidade, da educação, das artes e da alimentação. Recebem durante o ano cerca de 3 mil visitantes em seus cursos e retiros (como nós) e turistas, e com isso a média de pessoas por lá fica entre 100 e 300 (a depender da temporada).


Sol nascendo em Piracanga

A comunidade surgiu de um sonho da fundadora Angelina: ela conta que um dia sonhou que golfinhos a levaram pelo mar até uma praia, onde após uma faixa de areia tinha um rio, e depois um coqueiral. Foi um sonho muito intenso em sensações, e ao relatá-lo depois a um xamã, ele lhe disse que esse seria o sonho mais importante da vida dela, que ela de fato encontraria esse lugar e quando isso acontecesse deveria deixar tudo o que tinha para se dedicar a construir algo lá. Angelina é portuguesa e nunca tinha pisado no Brasil nessa época.


Enfim, para encurtar essa história que é muito melhor contada por ela e cheia de detalhes marcantes (saiba mais em: https://piracanga.com/nossa-historia-15-anos-de-inkiri-piracanga/), cerca de 10 anos depois da tal conversa com o xamã ela encontrou a península de Maraú e realizou a profecia dele: deixou pra trás o seu centro holístico em Portugal e veio para o Brasil com seu marido e filhos iniciar o que hoje é a comunidade de Piracanga. Atualmente, a comunidade tem 15 anos e é uma das principais eco-vilas do Brasil.


Mas e aí, como foi a nossa experiência nesse lugar? Nesse post vou partir das nossas restrições para explicar um pouco como a comunidade funciona e como foi nossa adaptação a ela.


Sem geladeira: A energia da comunidade é solar, 100% limpa, e por isso requer uso contido de aparelhos eletro/eletrônicos. Celulares e computadores são carregados somente durante o dia. Chapinha e secador de cabelo não são aceitos (para mim não foi um problema porque nunca fui usuária deles). Por isso, em geral as casas não tem geladeira, que eu considerava indispensável. No fim, foi o ponto mais fácil de lidar. Como lá a alimentação é vegetariana/vegana, sem carne e leite realmente a geladeira se torna um tanto dispensável. E não podendo estocar comida, come-se sempre comida feita na hora, o que torna a alimentação muito mais saborosa! O lugar tem feira 4x na semana, então dia sim dia não comprávamos o necessário para 2 dias e fazíamos tudo sem acúmulos, fresquinho e gostoso.


Liz e Danilo tomando café da manhã

Carne: Eu adoro comida vegetariana/vegana (e todos os demais tipos de comida! rs), então a carne não me fez nenhuma falta. Foi a primeira vez que fiquei 30 dias seguidos sem nenhum tipo de carne, e me senti muito bem fisicamente, com energia sobrando. Uma amiga vegetariana me contou que a energia que seria gasta para digerir a carne estava disponível para meu corpo usar de outras maneiras, e adorei saber disso! Danton teve um pouco mais de saudades de um hambúrguer, mas se desafiou a experimentar novas coisas e conseguiu ampliar bastante o seu repertório de comida (quem o conhece de perto sabe que o repertório dele uns anos atrás se resumia a: arroz-feijao-carne-macarrao-batata-frita rs).


E as crianças? Danilo se adaptou muito rápido a comida (delícia ver o pitico comendo couve aos montes com as mãozinhas), já Liz teve dificuldades inicialmente, pois está em uma fase mais visual (a comida precisa estar bonita de ver para ela achar que é gostosa), mas ao longo dos dias ela foi passando do “Não gosto de nada daqui!” pro “Vou experimentar!” pro “Que gostoso!” pro “Nossa, eu poderia morar aqui!”. Sobre a questão nutricional, conversamos com nossa pediatra antes e a única vitamina que falta na dieta vegana é a B12, mas só seria necessária complementação se fossemos ficar mais de 3 meses na dieta vegana, o que não seria o caso.


Cozinha comunitária - Casa Shambala

Banho Quente: essa era a minha maior preocupação antes de ir, e por isso fui a um evento da comunidade em São Paulo para me certificar que o local tinha banho quente. E sim, tem (a depender do sol). Porém, a nossa casa teve um problema no boiler e o chuveiro ficava frio fizesse chuva fizesse sol. Danton inventou uma brincadeira com as crianças para elas enfrentarem o chuveiro frio, elas adoraram e os três já se acostumaram de cara. Percebi que a preocupação do “banho frio com as crianças” era no fundo minha, que demorei quase uma semana para me acostumar. Uns 5 dias antes de sairmos conseguiram consertar o nosso boiler, mas nessa altura eu já estava adorando o banho “de cachoeira”.


Máquina de Lavar Roupas: Também por economia de energia, não se usa máquina de lavar roupas. E nesse ponto soma-se o cuidado com a água que eles tem na comunidade. A água é tratada localmente, mas sem uso de químicos (cloro e flúor), então cuida-se muito para utilizar somente produtos biodegradáveis, pois a mesma água que lavamos a roupa será usada depois de tratada e filtrada para beber. Assim, roupas são lavadas com sabão natural no tanquinho. Essa parte foi mais desafiadora para a gente, por conta das fraldas do Danilo, que tínhamos que lavar todos os dias (sim, ele estava usando fraldas de pano, outro acordo da comunidade). Danton e eu nos revezamos nessa função, e no fim colocamos as crianças para ajudar também, e tudo virou diversão!


Unidos do tanquinho!

Descartáveis: A comunidade tem o objetivo de se tornar lixo zero em alguns anos. Assim, descartáveis são restritos, e por isso Danilo usou fraldas de pano (Morada da Floresta) e eu usei absorventes de pano (Morada da Floresta) e calcinhas absorventes (Pantys). O absorvente e a calcinha foram ótimos, incorporei a prática na minha vida e recomendo! Já a fralda foi mais complicado, pois como falei tínhamos que lavar todos os dias na mão, e também porque a fralda noturna vazava com frequência. Da 2a semana em diante, conversamos com o pessoal da comunidade e passamos a usar a descartável a noite. O Danilo não sentiu diferença em usar fraldas de pano, o desafio foi mais para nós pais, mas também teve o lado compensador de deixar de lotar o lixo com montes de fraldas que ficarão aqui até nossos bisnetos nascerem.


Em relação aos demais produtos de higiene e cosméticos, como só pode usar biodegradáveis, montei antes de ir uma necessaire com produtos maravilhosos da ORIGEM e lá complementei o que faltava com os produtos Plante! (produzidos localmente).


E celular e internet? Funcionam? Sinal de celular e 3G só em alguns pontos específicos. O wi-fi funciona bem na maioria dos lugares, mas o convite é para o desapego de eletrônicos dentro dos locais de cursos, vivências, etc.


E bebidas, cigarros, drogas? Não se consome nenhum tipo de bebida alcóolica, cigarros e drogas lá. Eu tinha quase esquecido de colocar esse ponto, porque eu e Danton já estamos há muitos anos sem beber por conta de nossas gravidezes e amamentações (sim, eu tenho um parceiro incrível!), e esses anos nos fizeram refletir que “a cervejinha” era algo que fazíamos muito mais pelo aspecto social do que porque de fato gostávamos, então Danton decidiu cortar definitivamente e eu reduzi somente para quando sentisse vontade (o que é quase nunca). Então esse ponto de ficar sem foi indiferente pra gente.


E um ponto curioso aqui: enquanto tivemos lá aconteceu um casamento, e eu estava curiosa para saber como seria uma festa de casamento vegana e sem bebidas. O que presenciei foi uma festa linda, saborosa, e muito divertida, o que quebra a crença de que o ser humano precisaria da bebida (e similares) para socializar/celebrar. Não, não precisa. Descobri que o que de fato é imprescindível é a música. E isso tem em quantidade e em qualidade lá em Piracanga!


E porque a comunidade atrai tantas pessoas, mesmo tendo esses acordos considerados “desafiadores” para muita gente? Como falei, nesse post contei um pouco das restrições para introduzir alguns aspectos da comunidade que possam parecer difíceis, mas que fazem sentido quando você entende o propósito do lugar. Mas claro que ficou de fora aqui muitas coisas: os projetos desenvolvidos lá (são vários), os cursos, terapias, a escola das crianças, enfim, tudo o que nos encantou e que serão tema do 2o post (porque esse ficou muito grande! Rs). Vem com a gente!


Rio (e o mar ao fundo)

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